Apps para o sono funcionam?
1.Aplicativos para smartphone que prometem uma noite de sono com mais qualidade são realmente relevantes e eficazes no objetivo que propõem?
O crescimento dos aplicativos de sono reflete o interesse da sociedade por mais bem estar, qualidade de vida e qualidade de sono. Controlar os horários de dormir e acordar comprovadamente melhora a qualidade do sono, porque a pessoa passa se automonitorar, percebendo quando o padrão sai fora do habitual, e, consequentemente, se policiando mais. O interessante aqui é focar em horários regulares de dormir e acordar.
Porém o que os apps prometem, o que o consumidor espera e o que a ciência comprova ainda estão desalinhados. A maioria dos aplicativos visa informar horas de sono, tempo para dormir e acordar, e até mesmo distinção entre sono leve e profundo. Para que essas informações sejam confiáveis, é preciso que passem pelo crivo da “validação científica”, que objetiva tornar o aplicativo válido, em outras palavras é dizer que ele realmente faz o que promete. E existe um abismo entre essa validação e os resultados dos apps. Estudos recentes mostraram discordância importante quando os aplicativos são comparados com polissonografia, o exame ideal para avaliar o sono. Sofrem interferências toda noite como posição do telefone, movimentos do parceiro de cama e tipo de colchão. Na presença de um transtorno real, eles não são uma ferramenta diagnóstica e não substituem avaliação do médico do sono.
Dessa forma, ainda é difícil dizer como essas informações poderão trazer benefício para nosso sono.
Uma boa notícia é que evoluímos bastante na forma como entregamos informação confiável pela internet. Para insônia crônica, por exemplo, temos ferramentas online que auxiliam o tratamento presencial, levando dicas e vídeos informativos de qualidade.
2.Quais são as dicas universais, digamos assim, para dormir melhor?
O ato de dormir bem começa ainda antes de irmos para cama. O sono é uma função vital do organismo e devemos nos preparar para essa hora, é o que chamamos de “higiene do sono”.
Deixar os problemas de lado, transferindo as preocupações para um caderninho de anotações é uma dica para os ansiosos de plantão.
Algumas pessoas, como os insones, precisam reaprender a dormir, resistindo a tentação de ficar muito tempo na cama ou tirar cochilos durante o dia.
Não atrapalhar o sono já é uma dica por si só. A luminosidade emitida por aparelhos eletrônicos inibe a substância melatonina, importante hormônio que promove o sono.
Aquela dose de uísque ou vinho a noite realmente facilita o início do sono, porém altera as ondas cerebrais, superficializando o sono e causando despertares e ronco na madrugada. Isso também vale para comida pesada, devemos jantar até duas horas antes do horário de ir para cama.
Alguns medicamentos e chás, como o verde, vermelho e branco têm efeito estimulante, devendo ser evitados a noite.
Temos ainda transtornos que atrapalham o começo do sono, como síndrome das pernas inquietas, depressão e dores no corpo.
Por último, temos o cronotipo, que reflete as preferências de cada pessoa quanto a horário de dormir, acordar, fazer exercícios e trabalhar. Algumas pessoas se queixam de um sono ruim, mas na verdade estão desalinhadas ao componente genético do cronotipo. O médico do sono identifica nesse balaio quais hábitos melhoram o sono para cada indivíduo, hoje sabemos que não tem receita de bolo, o segredo está na medicina personalizada.
3.Existe alguma contraindicação em usar aplicativos para resolver este problema?
Sim, pessoas com distúrbio de ansiedade ou outros transtornos psiquiátricos não devem preencher diários de sono sem orientação médica. O uso dos aplicativos também não é indicado como substituto a nenhum tratamento ou conduta médica.
4.A maioria dos aplicativos usam sons relaxantes para induzir o sono, como o Sleep Genius que foi desenvolvido a partir de uma pesquisa da NASA. Qual é a sua opinião sobre essa técnica?
A música ou sons relaxantes melhoram o sono principalmente em portadores de transtorno de insônia. Ouvir música calma, chamada música sedativa, diminui a adrenalina e libera ocitocina, nos deixando mais relaxados e esvaziando a mente de pensamentos intrusivos, melhorando a qualidade do sono. A música também é benéfica para o sono em pacientes internados em enfermarias, unidades de terapia intensiva, portadores de fibromialgia, bebês prematuros, transtornos de ansiedade e desordens neurológicas, como epilepsia.
Apesar de dormindo, nosso cérebro continua ativo e suscetível a estímulos externos, então o som deve ser relaxante e sem mudanças bruscas no ritmo ou volume, para não causar efeito contrário e acabar nos acordando. Uma música mais calma, instrumental, faz muito bem perto da hora de dormir vez ou outra. O que devemos evitar é a dependência desses sons ou outros estímulos para pegar no sono, fato que vemos em bebês e crianças, algumas precisam de mamadeira, colo, televisão ou música para conseguir dormir.
5.O hábito de mexer no celular deitado na cama antes de dormir, no escuro, pode ser um inimigo para uma noite de sono tranquila — pelo menos é o que dizem vários estudos. É possível driblar essa tendência com os aplicativos que prometem justamente relaxar e induzir o sono?
O efeito maléfico do uso de celulares na cama não é amenizado por qualquer aplicativo presente no mercado. Além da luz dos aparelhos inibir o hormônio do sono “melatonina”, a manipulação do celular ativa e acelera múltiplas áreas do cérebro, indo contra o que é preciso para o relaxamento e descanso do sistema nervoso. O bloqueio da luz azul, disponível em alguns aparelhos pode reduzir um pouco esse efeito. Além disso, em algum momento aparece uma mensagem ou outra que nos deixa excitados ou ansiosos. O que podemos recomendar com confiança é evitar mexer no celular na cama, seja o aplicativo que for.